#43 Presente!
sobre a presença que falta no dia a dia
Minha memória andou voltando para os tempos de escola. Toda aquela vontade de pertencer a um grupo de pessoas misturada com a preguiça de aprender sobre química (que, até hoje, não sei como fui aprovada porque nunca entendi uma vírgula sobre). Me veio a lembrança da hora da chamada, quando o professor senta, consulta um papel (ainda é papel hoje em dia?) e vai chamando nome por nome cada um dos alunos, esperando que eles digam alguma única palavra para provar que eles estavam por ali. “Aqui!”. “Eu!”. “Presente!”. Lembro que uma pequena ansiedade me dominava nessas horas. Ficava atenta esperando pelo meu nome, para finalmente provar que eu estava ali, presente no momento. Só que na grande maioria das vezes, meu corpo estava presente. Eu, não.
O modo automático me atingiu em cheio no ano passado. Minha rotina era quase robótica, dificilmente me pegava com alguma emoção inesperada numa terça-feira à tarde que não fosse desânimo. Tentei fugir dessa sensação me aprofundando na literatura que eu tanto amo, mas o ciclo foi tão intenso que até ela acabou entrando nessa dança. Enquanto lia um livro, pensava no final dele - “será que eu consigo ler em uma semana?”, e acabava prejudicando minha própria experiência de leitura. Quando assistia um filme, constantemente pausava para ver quanto tempo ainda restava de longa. Quando estava em casa queria sair, e quando saia queria voltar para casa. Eu não estava presente em lugar nenhum.
Não existe meio de não responsabilizar, em partes, as redes sociais por isso, junto com a comparação inerente e quase incontrolável que elas desenterram em nós, a falsa sensação de prazer ao rolar o feed por hora, as mentiras - ou verdades maquiadas - que são contadas por quase todo mundo ali. Tudo isso nos faz viver quase que em uma realidade paralela, onde o presente real acaba ficando em segundo plano, e dele só damos destaque ao que pode não ser tão bom - como pagar os boletos, por exemplo.
Esquecemos de estar presentes em uma simples conversa entre amigos. Em ver a realidade pelos olhos do outro, mesmo que seja um assunto bobo, sem se preocupar com as horas passando. Aproveitar a taça de vinho ou a caneca de chopp, sentir o gosto da comida com calma, usar o tempo offline para verdadeiramente relaxar, conseguir ler um livro sem ansiar pelo próximo. Não estamos presentes nem mais no nosso tempo produtivo. Esquecemos a razão de nos esforçarmos em prol de alguma coisa, uma vez que estamos atentos às conquistas alheias, sem acreditar tanto nas nossas. O tempo de produtividade é custoso, sempre será, mas também pode ser vivido com mais leveza. É clichê, mas aproveitar o processo é estar presente nele, e não se projetando para um futuro idealizado. Talvez o tempo reserve uma realidade melhor do que a que foi imaginada por nós mesmos.
Palavras de uma pessoa ansiosa: não é fácil estar presente (talvez nunca tenha sido). Minha cabeça viaja sem a minha permissão. Ela vai para o futuro, para o passado, para as viagens que sonho em fazer, para a carreira que ainda não consolidei, para os livros que ainda não li, para aquele dia em que eu falei alguma coisa que não devia ter dito, para o passado ou para qualquer outro lugar que se não o meu próprio corpo.
Dia desses, liguei para minha mãe e falei “quero estar mais presente”. Ela me respondeu “mas você já está presente”. Então percebi que, na verdade, eu estava falando aquilo para mim mesma. Minha presença física pode estar em dia, mas aquela que realmente significa alguma coisa, talvez nem tanto. Foi como um auto-pedido. “Isabel, eu quero estar mais presente, aonde quer que eu esteja. Você permite?”.
Estou tentando. Estou tentando.
Do outro lado do muro ✨
Falando sobre presença, a news do Contente.vc foi tipo um tapa na cara com carinho:
Júlia traduzindo em news sentimentos de quem escreve:
Lembretes sempre necessários:








Batei em mim enquanto me esqueço de estar presente.
Assim como você, isso acontece sempre comigo.
Trabalho muito para estar presente, até quando escrevo essa MSN preciso me conectar com as palavras para poder dizer que seu texto bateu em mim.
Gostei muito dele.
amei, bel! que linda escrita <3