#67 Excessos
quando tudo já foi falado demais, o que sobra para gente escrever?
Ando meio contaminada pelos excessos.
Sento para escrever, uma frase que seja, e já me vem como referência frases bem construídas que li em algum livro, ou estruturas bem pensadas que vi em certas newsletters, ou algum assunto interessante que vi e ouvi com a cara grudada no celular antes de dormir. Boas referências podem acender a chama de um texto, ou podem o deixar tão intimidado a ponto dele não querer mais existir.
Ando nostálgica, saudosista da época em que a cabeça andava mais arejada e menos cronicamente estimulada; onde eu conseguia sentar, prestar atenção somente no barulho interno e tacar a mão no teclado do computador, escrever tentando traduzir pensamentos íntimos para quem quisesse ler, e quem sabe achar quem se identificasse. Ou mesmo da época em que existia tempo para ler um livro, ver um filme, viver uma experiência, absorvê-los, pensar sobre, para daí então produzir algo, se batesse uma genuína vontade disso. Mas estamos na era dos excessos. O que tenho para dizer, talvez eu já tenha visto outras tantas pessoas dizendo. Talvez todos os assuntos já tenham virado trend, thread, trilha, o que for. Talvez reste pouca coisa a falar.
Fica um desejo meio infantil de não querer lidar com os excessos de preocupações, de trabalho, de conteúdos, de realidade. Fica uma certa fantasia de “no final dá tudo certo”, e dá mesmo, ainda que dê tudo errado e o resultado seja o divórcio entre o corpo e o cérebro. Fica aquela vontade de “menos é mais”, pé no freio, mas por algum motivo sempre voltamos a acelerar, correndo atrás do “mais e mais”. Os excessos nos encantam, nos envolvem, nos prometem futuro, informação e pertencimento. Falam no pé do nosso ouvido que eles são ‘o caminho para a felicidade, para o desenvolvimento e para a inclusão, e que um pouco de sacrifício não faz mal a ninguém. O importante é ficar por dentro. Dentro do ciclo vicioso dos excessos’.
Ando contaminada pelos excessos e pela inconveniente comparação, e essa contaminação é bancada com a moeda do tempo, da criatividade, da calma. Mas ando querendo investir minhas moedinhas em mais autenticidade e desprendimento. Zerar a pretensão de que tudo tem que sempre ser bem planejado e perfeitamente executado. Puxar dos excessos apenas o que soma, e tirar tudo aquilo que só serve para sugar. Como fazer isso ainda é uma dúvida constante, mas talvez o fato de você estar lendo esse texto, seja um sinal da minha vontade de encontrar a resposta.
Uma mescla de assuntos ✨
Testando algumas coisas por aqui: sigo em busca de encaixar a criação/criatividade no meu dia a dia. Nessa, me inscrevi no Clube Seiva, e andei assistindo algumas aulas gravadas que aconteceram nas últimas semanas… e acredito que é um bom caminho para quem precisa de um estímulo para falar sobre arte, de alguma maneira, com um grupo de pessoas.
Ainda sobre a Seiva, o podcast Clareira tem alguns episódios bem interessantes, apesar de estar um tempinho sem atualizações.
Falando em podcast, já ouviram o Desenrola?
Eu sou apaixonada por comer bem. Comfort delivery, sabe? Mas, apesar de ser jovem, meu corpo já não está aceitando isso muito bem (depois dos trinta tudo muda, por falta de aviso não foi). A pele reclama, o cabelo cai, o estômago pesa. Com a ajuda de uma amiga nutri maravilhosa, tenho ressignificado a minha alimentação (sem nóia, sem restrição, apenas equilíbrio), e tudo tem sido mais leve.
Leitura em andamento: Chuva de Papel, da Martha Batalha. Estou adorando o livro. É sempre uma experiência bem bacana ler um livro em que 1) escrita é complexa em sua simplicidade, 2) você reconhece os cenários descritos no livro (que se passa no RJ), 3) mesmo na ficção o autor traz, de maneira natural, aspectos da história importantíssimos.





é sempre muito positivo quando a gente consegue se desintoxicar dos excessos que fazem mal...
Bel, seu texto me deixou pensativa demais. É tanto, de tudo, em todo lado. Ainda assim, sempre é tempo de poesia (e morangos). Um beijo