#68 Fases
e o desejo palpável de resgatar partes das que já foram
Nascimento (e seu imaginário)
Tudo é novo a ponto de não termos consciência do que está sendo visto, sentido, escutado. Rompemos uma barreira que nunca mais romperemos em vida: a de existir (não confundir com a barreira de “se fazer existir”, que passamos a vida tentando romper). É um blur, quase um conto lúdico que sai do imaginário de quem nos conta. Mas é real. Nascemos, passamos a existir e, a partir daí, é apenas uma eterna tentativa de lidar com isso.
Infância (e suas formas)
Tudo toma forma, e a forma que se toma depende tanto do entorno… pode ser uma forma lúdica, que se expressa através de cores, desenhos e melodias aconchegantes, ou a forma da realidade crua anunciando sua chegada muito precocemente. A nostalgia da infância pode trazer lágrimas nos olhos por muitos motivos, bons ou ruins. Eu vivi a infância em que minha boca era cheia de berros: de alegria e de protesto. Berros ao correr, ao ralar o joelho, ao brincar e gargalhar, ao questionar as regras da casa - impostas por proteção e cuidado, ansiando por uma liberdade que eu nem mesmo sabia que forma tinha.
Adolescência (e sua neblina)
A identidade que tínhamos, até então, não nos cabe mais. Rejeitamos cada eco de inocência e infantilidade, e mal sabemos que fazemos isso por conta da própria inocência e da própria infantilidade. É onde os paradoxos tomam conta. Onde se adaptar, se encaixar e pertencer passam a ser premissas de felicidade. As confusões se instalam. Os ouvidos aguçam para todos os lados, querendo captar as mais diversas opiniões. O corpo reage, hormônios se ativam, ideias viram certezas - certezas essas que descartamos anos adiante. Achamos difícil estudar, se enturmar, se colocar. O mundo não nos entende, e muito menos nós mesmos.
Juventude (e suas eternas possibilidades)
A vida começa a ganhar senso de urgência. O futuro vira uma questão para alguns, para outros tudo o que importa é viver intensamente o presente, poucos têm consciência dos fios que ainda os conectam ao passado. Nos divertimos, ganhamos liberdade (assim pensamos). Uma voz nova aparece de dentro, fazendo com que o ruído entre vozes externas e internas se intensifique e incomode. Os “tem que” passam a ser como um soco no estômago. Tem que se formar. Tem que trabalhar. Tem que ganhar dinheiro. Tem que ter carreira. Tem que construir família. Tem que conhecer alguém. Tem que ter propósito. Tem que viver enquanto é jovem. Alguns deles (dos “tem que”) a gente verdadeiramente quer, outros pensamos querer, alguns rejeitamos internamente, mas nos forçamos a “querer” na prática. Afinal, para “chegar em algum lugar”, “tem que” ser assim.
Adultos (e sua praticidade melancólica)
Quando pensamos que nos livramos dos “tem que”, eles se incorporam de vez em nosso corpo. Respiramos praticidade. Resolvemos problemas. Passamos a adotar planilhas. Nos cansamos. Tomamos café. Sobrevivemos. O mais desprendido dos adultos se torna prático, nas suas mais diferentes realidades. Não existe tempo para questionar muito. Se questionamos, algum ganho com isso temos que ter. Só existe espaço para a tentativa de criar novos espaços (na sua maioria, de descanso e prazer). Algumas vezes parar para refletir passa a ser inevitável e penoso. Olhar o espelho custa uma sessão de terapia (olhar em volta, além do nosso umbigo, também). Somos parte de todo um maquinário que precisa girar, assim disseram. Falamos em voz alta que sabemos dos nossos privilégios, mas estou convencida que não sabemos o que essa afirmação significa. Adquirimos responsabilidades porque parecia certo, mas não temos mais tanto tempo para entender qual é o conceito de “certo”. Ao mesmo tempo que toda praticidade e responsabilidade nos afunda, acreditamos genuinamente que estamos em nossa melhor fase. Deixamos para trás certas inseguranças. Selecionamos os nossos sofrimentos e valorizamos mais os sorrisos e momentos de cerveja no bar com os (poucos) amigos. Entendemos (um pouco mais) a verdadeira importância do amor. A urgência de viver é substituída por uma urgência de tranquilidade, de estar em casa, em seus mais diferentes conceitos.
O resgate (e suas tentativas)
Nos sentimos perdidos, mas aí voltamos para catar os cacos.
Buscar aquela urgência de viver e senso de propósito da juventude, aquela inocência da adolescência, aqueles berros de alegria e brincadeira da infância, o ineditismo do conceito de existir que nos acompanha desde o nascimento.
Queremos resgatar quem somos, para que viemos e porque fazemos o que fazemos com a nossa vida. Queremos ser menos para ser mais. Queremos nos reencontrar e nos reconstruir - já que depois de tantas fases, entendemos que a vida vale muito a pena para sermos apenas meros espectadores do passar do tempo.
Sobre leituras 📖
Terminei a leitura de “Chuva de Papel”, da autora Martha Batalha, e o que eu posso dizer sobre o livro é que foi uma grata surpresa. Me cuidando para não dar nenhum spoiler por aqui: o desenho do Rio de Janeiro das décadas de 60, 70, 80 me instigou a querer pesquisar e saber mais sobre a história da minha própria cidade (não só a história amplamente conhecida, mas a história das entrelinhas). A narrativa traz tantos fatos trágicos, de uma realidade tão crua, que me deixou em diversos momentos com o aperto no peito durante a leitura - aperto esse que logo se aliviava com a pegada cômica do relacionamento e diálogo entre os personagens. Achei fluído, fácil de ler, me prendeu até o fim. Amei a escolha do título - faz referência à uma única e breve ação no livro, mas que traduz muito bem a história como um todo. Algumas citações me marcaram.
Ele pensa que deveria ser um direito viver sem sustos. A vida com simples reposição das crianças no balanço por outras, de novo e de novo. Ele evita pensar no tanto que sabe e viveu. Mas isto lhe vem a mente: uma entrevista que fez com um intelectual, quando cobria as férias de um repórter de cultura. Um homem de óculos em cadeira de couro, numa sala repleta de livros. O homem disse algo sobre as histórias só existirem enquanto os livros são lidos,
Para ele, era o contrário.
Joel só existia quando contava uma história.
Uma mescla de assuntos ✨
A busca por leveza da Carolina Ruhman Sandler me encontrou e me abraçou:
Por um Rio que leia mais (reportagem QuatroCincoUm)
Buscando atenção na vida (Júlia):








"a vida vale muito a pena para sermos apenas meros espectadores do passar do tempo." é isso!