#69 Detalhes
e uma tentativa de provar para mim mesma que eu ainda sei escrever.
Perdida nas memórias, dias desses andei visitando o passado. Voltei para as aulas de artes da escola, revisitei o rosto branco e os cabelos ainda mais finos e loiros de uma menina de 10 anos que se arriscava a pintar uma tela com tinta acrílica ou gouache. A sala em seu entorno era de tijolinhos, e tinham três mesas grandes que comportavam uma turma de 3ª (ou 4ª) série. Não lembro exatamente do pedido da professora de artes, mas lembro perfeitamente de estar pintando um vaso de plantas. O vaso era apenas uma bola meio disforme na cor marrom. As plantas, três cabos verdes, com uma bola amarela em suas pontas e pétalas coloridas saindo de seu extremo. “Que lindo! Mas olha, acho que você pode caprichar mais nos detalhes. E se colocarmos alguns desenhos nesse vaso?”.
A verdade é que eles sempre me escaparam. Os tais detalhes.
Cheguei na fase adulta acreditando ter um visão generalista da vida. Tenho interesse por tudo um pouco, mas pouco foco para aprofundar nos detalhes de cada tema. Gosto de pintar, mas me falta visão de como aprofundar sombras, relevos e texturas. Evoluí na profissão tendo um olhar macro do que é comunicação, e pouco de como ela pode interferir na minha vida e em vidas alheias. Me visto de maneira básica porque falta visão para entender como os detalhes podem compor melhor o tal do look. Leio livros, inconscientemente, para absorver a história de maneira geral, são poucas as vezes que aprecio cada palavra escrita - muitas vezes colocadas de maneira única e proposital em cada texto. Fico na dúvida se me esquivo dos detalhes por falta de intimidade com eles, ou pelo meu subconsciente acreditar que ninguém vai notá-los. Talvez seja um pouco das duas coisas.
Acontece que eu cansei de ver os detalhes fugindo de mim. Quero correr atrás deles.
O “macro” é o paradoxo de um vazio sufocante. Tem sido cada vez mais, porque o macro é muita informação. Muita opção. Muita possibilidade. Muito tudo, e ao mesmo tempo muito nada. O macro é a agonia de querer dar conta de tudo, saber de tudo, deixar o olhar ser captado por milhões de estímulos que só podem causar um blackout no final das contas. O macro é enxergar o vaso de planta como uma bola disforme marrom, enquanto tenho o pincel e a tinta para transforma-lo em um vaso com detalhes vibrantes, coloridos. O macro se rende ao conto do tempo acelerado e da urgência, enquanto os detalhes deixam o relógio correr no ritmo dele, pois sabe que, naquilo que ele está investindo, vale a pena o tempo perdido.
Cansei de deixar os detalhes fugirem de mim. Preciso deles aqui comigo. Só assim o passar do tempo volta a ter sentido.
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os detalhes são o que dão colorido às coisas.