#71 Repertório
se eu posso reforçar um conselho já dado, eu digo: se não escrever for uma escolha, não escreva.
“Se não escrever for uma escolha, não escreva”.
Li/ouvi isso (ou algo parecido com isso) em algum momento - em algum vídeo, podcast, livro, série, não sei dizer. Sequer lembro da autoria da frase, e ultimamente tem sido assim a vida: cada vez mais automática, menos memória, mais fritação. E é exatamente disso que eu venho tentando correr, buscando o lado oposto de uma vida moldada aos movimentos parecidos com os de um robô.
Mas daí ouvi essa frase, e algo borbulhou dentro do meu corpo frito e cansado: “se não escrever for uma escolha, não escreva”. Porque é dificil se dedicar a escrita. Ela exige calma, reflexão, criatividade, análise, tempo. Mesmo que seja uma escrita simplesmente cuspida e sem grande elaboração, algo em sua volta precisa se silenciar para que você escute o que seus dedos têm para teclar (ou o que a caneta tem para rabiscar, para os que ainda entendem a beleza de uma letra feita à mão). Escrever, além de uma atividade mais introspectiva, se usa do barulho interno tentando organizá-lo - e às vezes doem os ouvidos mexer nesse barulho, alto e silencioso ao mesmo tempo, barulhento mesmo quando ele pede para que você escreva algo totalmente ficcional.
“Se não escrever for uma escolha, não escreva”. Porque é raro quem vive só da escrita. Não dá pra ganhar dinheiro, dizem. É custoso. Há pouco tempo para leitura de qualidade. Falta incentivo. Precisa-se de tempo, de um lugar, de um meio, de um repertório. Na bolha privilegiada onde jovens e adultos competem indiretamente entre si, expondo nas telas a quantidade de livros lidos por cada um ao longo do ano (como se fosse uma competição), eu me pego encarando meu livro de 300 e poucas páginas que comecei a ler a mais de um mês e ainda não consegui finalizar. A leitura está ótima, o ritmo das coisas é que perdeu o freio. Foi só para mim?
Vejo um movimento tímido de tentativa de saída do tal do brain rot. Menos tempo de tela. Pessoas vendo a problemática da exposição sem cuidado, da conexão com intencionalidade rasa ou perigosa, do meio que era para ser diversão e virou um buraco sem fundo de comparação e repetição. De pessoas cavando no meio dos algoritmos quem tem coisa legal para falar, para mostrar, para contribuir. Gente valorizando o repertório que se ganha nas telas e na vida. Gente tentando se reencontrar.
Tenho aparecido muito pouco por aqui, mas não tem um dia em que eu não pense em como dar as caras. O que falar, com tanto já sendo dito? Estou na crise do repertório, e a crise é tão grande, tão tão presente, que sinto que já disse isso em algum outro texto. O ano passou como um trem-bala. Sobrevivi, mas pouco vivi dele. Pouco o repertório que consegui puxar para o meu eu, minha essência, para o que me dá gás, ideia e vontade de sentar e escrever. Obviamente a sensação não é vivida só por mim, outros tantos criativos sentem a mesma coisa. Então, se não escrever for uma escolha, não escreva. Vai ser mais fácil. Vai ser uma tarefa a menos, uma preocupação a menos, um espaço livre a mais na sua cabeça.
Para mim e para tantos, não escrever, não é uma escolha.
Não é uma escolha porque o que habita em mim não é uma vontade apenas de viver da escrita. Estaria mentindo se falasse que não me importo se sou lida ou não. Mas o ato de escrever vai muito além da possibilidade de alguém me ler. É um ato que me traduz como ser humano. É a forma que me expresso, que existo, que busco me compreender. É a obrigação que inconscientemente me cobro todos os dias. Escrever não é uma escolha, é um traço da minha personalidade. É intrínseco, é inevitável, é o que ainda me faz sentir um friozinho na barriga de vez em quando, em meio a tempos tão automáticos e meio bizarros. É a forma que eu vejo possível de me deixar no mundo.

“Se não escrever for uma escolha, não escreva”.
Mas, se não for uma escolha, não desista de escrever. Ainda que invisível aos olhos de muita gente, a literatura ainda é um dos motores possíveis de mudar o mundo.
É ela que muitas vezes aconchega, ensina, perpetua.
É nela que quem tem medo de colocar o pé para fora de casa, encontra conexão com o mundo.
É nela que as palavras ainda são ditas e escolhidas com algum cuidado.
É nela que nacionalidades, visões, e encontros acontecem.
É nela que o mundo desacelera.
Para mim e para tantos, não escrever, não se trata de uma escolha.
E apesar de tudo, essa é provavelmente a melhor falta de escolha que eu tenho na minha vida.
Uma Vida Bela 📘
Emma e Agathe são irmãs. A primeira vista, pode parecer que elas tem um relacionamento distante, mas são justamente as distâncias que elas ganham ao longo da vida que unem as duas através de um corda invisível. Ao perderem a avó que tanto amavam, as duas decidem passar um período de férias juntas, depois de anos afastadas, para se despedirem da casa que viveram boa parte de suas vidas. Dai, aparecem linhas escritas com muita delicadeza e simplicidade pela autora francesa Virginie Grimaldi, que trabalha a história através da complexidade das relações familiares, dos sentimentos inerentes aos seres humanos e da presença das doenças da mente nos círculos afetivos.
Gostei da leitura, achei fácil de ler, encontrei várias passagens lindas ao longo do livro, talvez um pouquinho leviano em alguns pontos (me incomodou um capitulo em específico onde a personagem fala da própria saúde mental, mas enfim, são detalhes).
Próxima leitura (retomando uma que foi um pratinho que caiu ao longo desse ano):
Curiosa para ler o que a Dani Arrais tem para me dizer. :)
Uma mescla de assuntos 👑
Bárbara Bom Angelo tratando a literatura do jeito que ela merece <3
Anna Medeiros sobre não saber até fazer:
Um episódio divertido e leve de podcast: É Noia Minha falando sobre o que as Redes Sociais andam fazendo com a nossa cabeça:









Gostei desse conselho, é algo que faz muito sentido pra mim e que vejo com frequência nas pessoas que procuram companhia e apoio para escrever. 💖
Você descreveu exatamente como me sinto! A necessidade de escrever para me compreender. Uma atividade terapêutica que cura.