#72 Trégua
cansada até para as guerras internas; fazendo as pazes até com o que nem quer briga comigo.
Tantas são as violências que andam nos corroendo aos poucos... Desde os comentários alheios com uma pitada de maldade que vemos nas redes sociais, até verdadeiras guerras sendo travadas no Brasil e mundo afora. Diante de um cenário que mistura os momentos bonitos da vida com cenas que nos doem testemunhar ou viver, eu entendi que existe um ato simples que pode aliviar um pouco o peso das coisas: fazer as pazes. Meu cérebro berra por trégua.
Com outras pessoas? Não, comigo mesma. Comigo e com situações, umas mais grandiosas, outras mais mundanas e sem muito sentido. Em resumo, coisas importantes e coisas idiotas que fazem parte do meu ser. Coisas que tentei mudar e não consegui. Outras que nem tentei, que estão longe demais da minha capacidade de sequer começar a compreende-las. Outras pelo fato de eu precisar escolher minhas batalhas (cansados entenderão).
Dito isto, segue a lista:
1) Decidi fazer as pazes com o fato de que eu não consigo usar ferramentas de organização online para colocar meus projetos pra frente (peço desculpas ao Notion, Trello e adjacentes). Meu negócio é agenda, papel e caneta mesmo.
2) Decidi fazer as pazes com meu jeito de escrever. Sou cheia das metáforas e da melancolia. Não consigo fugir disso, umazinha ou outra sempre vai ter.
3) Decidi fazer as pazes com o fato de que eu leio devagar e de que eu abandono livros quando eles não me prendem, e que isso não me faz menos interessada em literatura.
4) Decidi fazer as pazes com minha pele que não aceita sol, já que ela vira um camarão frito em poucos minutos. Aceitei que sou carioca, porém sem a estética carioca bronzeada e sarada. É a vida.
5) Decidi fazer as pazes com o fato de que não me faz bem tentar estar antenada em tudo, dar conta de tudo, ter opinião sobre tudo. Tem dias que passo longe de veículos de notícia. Trégua para o cérebro.
6) Decidi fazer as pazes com meu gosto pessoal para música, livros, filmes, séries, artistas. Ele é amplo, misturado e sem sentido mesmo.
7) Decidi fazer as pazes com a forma como se constroi uma carreira. Fiz as pazes com a Isabel jovem que não pensou nas escolhas e caminhos que hoje eu penso, mas que são mais dificeis de serem tirados do papel por motivos de vida acontecendo e responsabilidades berrando nos meus ouvidos.
8) Decidi fazer as pazes com o tal do “longo prazo”. Nunca fui muito íntima dele, mas tem coisas que só vão vir se eu virar amiga desse filho da mãe. Meu imediatismo sofre.
9) Decidi fazer as pazes com a finitude. No meu íntimo, eu fingia que ela não existia. Hoje, eu tento encara-la constantemente de frente. Já que ela vai me dar alguns socos na cara ao longo da vida, melhor que eu a olhe nos olhos e me prepare (olha eu falando por metáfora aí!).
10) Decidi fazer as pazes com a imperfeição. Ela está em todos os aspectos e cantos da minha vida - e da vida de todo mundo, acredito eu (ok, existem exceções: ela não está nas paisagens naturais surreais de lindas, em um bolo de chocolate doce na medida certa e em todos os cachorros desse planeta).
11) Decidi fazer as pazes com o fato de que eu talvez não tenha tempo hábil e dinheiro o suficiente para viajar o tanto que sonhei, comprar tudo que pensei, viver as experiências que tanto planejo. Só não fiz as pazes com a ideia de parar de sonhar. Isso eu ainda me recuso.
12) Decidi fazer as pazes com momentos nostálgicos que ficam só na memória, e que mesmo que eu conseguisse reunir as mesmas pessoas, no mesmo lugar sob as mesmas circunstâncias, não seria a mesma coisa.
13) Decidi fazer as pazes com o tédio. Ele é tão presente na vida quanto a imperfeição e a finitude.
14) Decidi fazer as pazes com a minha sensibilidade, minha dualidade entre extroversão x introversão, com a minha timidez, meus rompantes e minhas limitações. Coloquei na balança o que é desconfortável porque me instiga a ser diferente, e o que é desconfortável porque simplesmente não é pra mim. São dois pesos bem diferentes.
15) Por fim, decidi fazer as pazes com o fato de que filmes de terror, por mais toscos que sejam, dão medo em uma mulher de mais de 30 anos (eu fico sem dormir, é sério).
Assim, sigo no processo de diminuir as violências internas, de mim contra eu mesma. Entre tantas outras pazes que eu preciso fazer, vou buscando um lugar mais pacífico dentro de mim, que não se colapse com o mundo caótico que está ao nosso redor.
Uma mescla de assuntos 🙋🏼♀️
Em outubro, fiz um curso voltado para escrita criativa e storytelling, e uma das pessoas que eu conheci lá foi a Clara Chagas; e que grata saber que ela é uma excelente escritora:
Impactada com o texto lindíssimo da Gabi Albuquerque;
Um papo super legal de ouvir do podcast da Isabella de Andrade:






Tem horas que penso que sou sua irmã gêmea. Mas aí percebo que é porque você escreve bem pacas, lindamente mesmo, e é fácil fazer parte dele. Te abraço, querida. Obrigada por mais este
nada é mais importante do que estar em paz consigo mesmo. 😊