#73 Sons
o que eles nos dizem, e como eles comprovam a nossa ausência.
Parar e escutar parece algo tão simples e cotidiano… mas será mesmo?
Será que o ato de escutar conscientemente não se tornou uma das raridades da vida humana, junto com o ato de revelar uma foto tirada por máquina analógica, ou guardar cupons de desconto que vinham em jornais e revistas, ou até mesmo sentar e aguardar que o rádio tocasse uma determinada música?
Os sons guiam as nossas vidas. Ditam nosso humor, energia e muitos dos nossos pensamentos. Mais do que o que vemos, o que escutamos diz muito sobre quem nos tornamos.
Dia desses, rolando
e apodrecendo um pouquinho meu cérebro como feed do instagram, fui impactada por um conteúdo bobo, mas real: a cena de um filme de terror com uma música romântica por cima, como trilha sonora. Conclusão: a cena, que facilmente me assustaria e me daria uma ultra agonia (sim, sou adulta e tenho medo de filme de terror), ficou engraçada. Tudo por culpa do som, que tanto molda a nossa percepção.Melodias suaves para dias melancolicos, vibrações intensas para os dias que se precisa de energia. Música eletrônica para correr na esteira. Sons de cachoeiras e animais noturnos para meditar ou relaxar. Billie Eilish para refletir. Backstreet Boys e Sandy e Junior para me transportar para minha pré-adolescência. MPB para me conectar. Lo-fi para escrever.
Uma das minhas sensações favoritas é acordar na serra, em um dia de sol, com o som do galo e dos passarinhos. Especialmente de manhã cedo, que ainda não tem muitos carros passando na rua, nem muitas pessoas em volta. O som da natureza se destaca, o canto do sabiá-laranjeira entra em mim de uma forma que me convence que a solução da paz mundial está bem ali, pertinho de mim, cantando e voando em liberdade.
E quem não ama dormir com o barulho de uma chuvinha tranquila?
Em contrapartida, estar em meio ao trânsito da cidade grande, com motoristas impacientes, buzinas e xingamentos (jeitinho carioca de enfrentar o horário das 18h), é uma das situações que me fazem querer cavar um buraco no chão do carro, atravessar para o asfalto e continuar cavando até o centro da terra. Acostumei com esse barulho? Acostumei. Mas ainda é algo que drena a minha energia quando preciso sair de casa no horário de rush.
Mas alguns caos tem seu valor. É diferente a sensação que se tem quando se está na praia, com vendedores ambulantes de mate e esfiha, pessoas falando alto, alguns risos de crianças se divertindo com baldes cheios de areia e o som das ondas batendo ao fundo. Um caos gostoso de se ouvir, na maioria das vezes.
O ato de ouvir é tão importante. Os ouvidos absorvem muito mais do que temos consciência. E quando temos essa consciência, muitas vezes, optamos por não prestar atenção. É um dos sintomas do cansaço, do excesso e da pressa.
Mas palavras faladas se perdem e a gente parece esquecer disso constantemente. Porém, a gente também anda meio perdido, não anda? Deixando escapar palavras por aí, das nossas bocas e das bocas alheias. Deixando escapar momentos, conversas, ideias, presença.
Tão perdidos que é cada vez mais comum colocarmos um fone de ouvido estourando nossos tímpanos, no intuito de nos tirar dos sons que nos cercam e os quais não temos controle.
E como bons paradoxos ambulantes que somos, deixamos escapar milhões de palavras que são boas, e guardamos mais daquelas que são ruins, que nos lembram das nossas próprias imperfeições e que nos colocam em dúvida sobre nós mesmos.
Você ainda senta para escutar alguém falar por mais de cinco minutos, sem ter o celular perto das suas mãos?
Tinha algo de terapeutico em aguardar o rádio tocar uma música que sintonizava não só com as antenas e ondas sonoras, mas também com as nossas expectativas, gostos pessoais e, mais do que isso, com a nossa presença. Ali ficávamos nós, parados, diante de um rádio com uma fita cassete engatilhada e um dedo próximo do botão “REC”.
Isso não é só nostalgia.
Isso é saudade de presença.
Uma mescla de assuntos ✌🏻
Ainda falando sobre sons:
A importância de aceitar a mediocridade:
Até quando vamos ignorar os sons/sinais do nosso corpo?







o que mais temos feito, infelizmente, é ouvir e não escutar...
Mulher amada , eu amo ler as coisas que você nos presenteia por aqui