#75 Banho de cheiro
um cheiro do que foi e do que vem por aí
Eu tenho uma relação maluca com cheiro. O cheiro é a memória mais forte que eu guardo de alguém, é o elogio que eu gosto de receber, é o sentido que me dá sensação de aconchego - principalmente quando ele traz a terra molhada pela chuva ou o estourar da manteiga, alho e cebola na panela. As lembranças mais fortes que eu tenho de pessoas queridas que se foram é o cheiro. E eu juro que, às vezes, ainda os sinto.
Recentemente estive no Pará. É minha terceira vez visitando a terra da estrela solitária, e o que eu posso dizer é que aquele lugar é todo sobre o cheiro, em seus mais diversos sentidos. Cheiro do tempero nortista, cheiro de pele, cheiro de floresta, de rio, de ervas, do orgânico, da cidade que cresce.
Do Museu das Amazônias ao Ver-o-Peso, em Belém, até a Ilha do Combú, paraíso natural em meio a natureza, a imersão interna foi violenta. No museu, a exposição “Ajurí” traz de forma tão vívida a história e vivência do norte do país que é de arrepiar. Em uma sala escura, trabalharam a reprodução do fogo (que é elemento milenar, aliado e respeitado por povos originários, mas que sabemos muito bem que virou sinônimo de destruição, ganância e incêndio) tanto em imagem quanto em som, e eu juro que pude sentir o cheiro triste de madeira queimada. Na exposição “Amazônia”, do Sebastião Salgado, em cada foto eu pude imaginar e sentir o cheiro da floresta. Cada clique da grandiosidade natural, das quedas d’água sutis ou enormes, das incontáveis árvores, dos caminhos criados pelos rios, em cada um deles em imaginei um cheiro. E que cheiro maravilhoso.
Na Ilha do Combú, o cheiro do chocolate artesanal, produzido em uma das pequenas casas que se escondem entre as árvores, junto com o cheiro da mata fresca. No Ver-o-Peso, o cheiro da alegria e ancestralidade das erveiras, que se sobressaem tanto quanto os banhos.
Estou longe de ter o poder de conseguir descrever a profundidade do Pará tendo indo tão pouco lá, e sabendo das minhas raízes sudestinas, a chance de eu ser superficial aqui é grande. Mas não queria deixar de registrar o quanto essa viagem foi uma reconexão com os meus sentidos. Aliás, uma lembrança de que eu ainda tenho sentidos.
Mundo automático. Bombardeio de conteúdo e informação. Finitudes. Tic-tac do relógio. Autocomprovação, autovalidação, autocuidado. Eu não vi, ouvi, encostei e nem senti o cheiro ou o gosto de 2025. Ele só me atropelou, e sobre isso eu escrevi aos montes por aqui, então chegou a hora de virar a página. Chegou a hora de viver no tempo presente e sentir a vida com os sentidos que eu tenho, aceitando que às vezes ela é palatável, às vezes não. Entendendo que o cenário ideal muitas vezes é o de instabilidade, que tanto pode incomodar. Que às vezes a rotina e o controle escapam das mãos mesmo, e o recomeço é inevitável ao longo da vida.
Inspirar para encher os pulmões, para acalmar e também para sentir mais os cheiros do presente.
No Pará, antes de ir embora do Ver-o-Peso, uma erveira quis me dar um presente. Pedi para ela escolher um dos cheiros, o que ela quisesse me dar. E o que ela escolheu, dá vontade de encher os pulmões e falar em voz alta. Então fica aqui o meu desejo para mim e para quem me ler: que 2026 não possa com a gente.

Bora respirar e sentir o cheiro de estar vivo.
Feliz ano novo! 💫








que esse ano seja impossivelmente feliz !
acho muito impressionante como alguns cheiros são capazes de nos transportar para outros lugares e tempos de forma quase instantânea…