#76 Mentiras confortáveis
o impacto de reconhecer a complexidade do que é ser humano
Vivo me contando meias verdades. Ou meias mentiras, não sei. Quem não? Tento me convencer que tudo está sob controle, mas a real é que a gente não gosta do que não conhece. Ficamos com medo. Então, nos contar mentiras em voz alta (ou bem baixinho, dentro da nossa cabeça, sem ninguém ouvindo) é o meio de nos manter caminhando com uma falsa sensação de segurança, sem deixar clara a nossa vontade de correr para debaixo da cama e se esconder dos perigos que cercam a nossa bolha.
Quantas vezes fingi que algo não me assustava ou não me machucava. Quantas palavras saíram da boca pra fora para provar algum ponto que provavelmente tinha muito pouco sentido. Quantas vezes fui vaga em relação aos meus desejos. Quantas vezes permaneci em silêncio, mas a cabeça estava aos berros. O contrário também é verdadeiro: quantas vezes disparei a falar, mas o que eu precisava era de silêncio. Quantas afirmações sem certeza já foram feitas, disfarçadas de verdades absolutas. Cremos em mentiras confortáveis, embora saibamos a verdade dolorosa que tornam essas mentiras necessárias.
Seres humanos são complexos, e o ato de mentir - pros outros e para si mesmo - é tão complexo quanto. A mentira às vezes é tentativa de aconchego, muitas vezes é um tiro no pé. Pode funcionar como uma arma contra outra pessoa, ou como escudo, na tentativa de ocultar uma verdade que machucaria muito mais. Ninguém admite que gosta da mentira, e pensamos não gostar mesmo. Ainda assim, não vivemos sem ela. Mas então, entre quem conta mentira ou verdade, quem é o mocinho? Nem sempre há mocinho. E também nem sempre há um vilão. A maioria das pessoas está em algum lugar no meio.
A ilusão não mora em lugares específicos da nossa experiência em vida. Não mora somente no amor, no trabalho, na amizade. Mora na percepção de nós sobre nós mesmos. Quanto tempo passamos tentando nos conhecer? Talvez mais do que gastamos tentando conhecer o outro. E ainda assim, muitas vezes, colocamos pouca fé no que soa verdadeiro em nós. Preferimos crer nas tais das mentiras confortáveis, mas muitas vezes não consideramos que a fé é metade da cura. Sua crença é valiosa, então se deve prestar atenção onde a coloca e em quem.
Em meio a um processo de cura (não estamos todos em um?), tenho prestado atenção onde coloco meu pensamento, minha crença, meus suspiros. Tenho prestado atenção em cada pedaço de mim, em qual ilusão eu embarco e tentando optar por aquela que esconde uma verdade atrás de si. Tentando entender que para mim a vida é sobre escolhas, e assimilando a verdade desconfortável de que nem pra todo mundo é assim. Escolhendo fazer das verdades desconfortáveis um ponto de partida para algo maior e sincero, e encarando a maior delas: não se vive feliz para sempre. Mas a vida é assim. A maioria de nós vive meio bagunçado para sempre…. e tudo bem.
7 minutos depois da meia-noite (A monster calls)
Quem assistiu ao filme, sabe que as frases em negrito do texto acima saíram dos diálogos dele. O filme é de 2016, mas só fui assisti-lo algumas semanas atrás e fiquei refletindo sobre. Além da fotografia e toque artístico, a sensibilidade do filme me tocou verdadeiramente. Triste, mas bonito, franco, diferente. Ficou comigo. <3
Uma mescla de assuntos 👁
Tenho gostado de ler a newsletter do Tiago . Geralmente curtinhas (o que é ótimo pra quem tá com a atenção danificada como eu), ela tem me ajudado a manter aquele friozinho na barriga de colocar um projeto pra frente:
Tem alguns textos da Fabiane Guimarães que ficam comigo dias e dias. Fui resgatar um dela pra deixar aqui como sugestão, porque um trecho me marcou tanto: “Seria bom não ter mais desejos. Conseguir apenas aproveitar o agora, o que é possível, o que está presente. Sorrir com a esperteza incalculável das minhas filhas. Apreciar o meu marido e a vida simples que temos. Respirar. Estar aqui e suportar o que for necessário, porque o mundo é belo e injusto, e a minha dor é só uma dor menor.”
No resgate da espiritualidade:









requer humildade para encarar, clareza interna para entender, e paz para aceitar. sigo tentando
encarar verdades desconfortáveis exige uma coragem que nem sempre a gente tem... mas é um processo mais do que necessário.