#78 Autopiedade infundada
o título é autoexplicativo :)
Este é um texto sobre perspectiva. E sobre adaptação. E sobre tato. E sobre mais um monte de coisas que eu ainda não sei.
No início da minha carreira em comunicação, trabalhei como produtora de pauta em um portal de notícias local. Ainda estava aprendendo sobre a técnica jornalística, então precisei da ajuda de uma colega para desenvolver a pauta sobre uma artista que pintava quadros sem as mãos.
Ela não tinha os dois braços. Já havia nascido com deficiência. Usava a boca e os pés para pintar quadros que retratavam, em sua maioria, imagens de mulheres e flores. Lembro que eram retratações sensíveis e muito, muito, muito bonitas.
Ela tinha um tato na pintura que transcendia o sentido e o uso das mãos. O tato em representar mulheres de maneira expressiva em suas telas, com autenticidade, conseguindo colocar em imagem força e delicadeza ao mesmo tempo. Pinceladas fortes e suavez, cores mistas e vivas, técnica única. Aquela coisa toda que só alguém que tem a arte em si sabe fazer.
Após a gravação da matéria, o câmera me relatou que, quando o repórter pediu para que ela pintasse um pouco para a gravação da passagem, ela se atrapalhou com o píncel na boca e o deixou cair algumas vezes. Se desculpou, justificou que estava nervosa por estar sendo filmada. E eu lembro de ter sentido pena da moça.
Uma mulher sorridente, alto astral, feliz em exercer seu poder como artista, que sabia se expressar da maneira mais sensível possível e grata por descobrir que tinham pessoas interessadas em contar a sua história. A mesma mulher que não se deixou parar, já que queria pintar. Sequer precisou dos braços. Se adaptou para fazer valer a sua própria vontade.
Não preciso falar que eu devia ter recolhido toda a minha “pena” e ter olhado para ela com grande admiração.
Quase 10 anos depois, aqui estou. Exercer a escrita ainda é um grande desafio para mim. Construo muros gigantescos entre eu e o hábito de escrever. Sigo, contra minha vontade, reforçando para mim mesma que o mundo já está inflado demais de conteúdos, de livros nas prateleiras, de gente com algo a dizer, de gente que escreve, que pinta, que desenha, que fala, que grava vídeo, que faz trend. Ainda existe espaço para mais alguém dizer mais alguma coisa?
Pena eu tinha que ter de mim, mesmo não sendo nem um pouco digna dela. Pena por, muitas vezes, não ter um tato comigo mesma. Por não conseguir mergulhar fundo o suficiente e ver que no cadeado enferrujado que me trava está escrito “medo, insegurança, dúvida e essas merdas todas aí”. Pena por continuar me entregando à rotina do trabalho que paga minhas contas e usar isso como justificativa
(que tem toda sua validade)para dar menos atenção ao trabalho que dá como retorno algo além do dinheiro. Pena por me deixar levar por entretenimento barato na tentativa de esvaziar a cabeça, ao invés de entregar todo o excesso de pensamentos ao papel e ver o que sai desse processo. Pena por não validar as vezes que esse processo sai do mental e vira texto.A minha sorte é que não existe escolha. Eu não existo sem a vontade de escrever. Seria como viver faminta e não comer… só que ao invés de ir atrás daquele prato maravilhoso e cheio de sabor, eu continuo me alimentando de pão e ovo. Entenda, eu adoro pão com ovo e fico feliz de te-lo nos meus dias. Mas eu não quero viver só dele.
Este é um texto sobre perspectiva. E sobre adaptação. E sobre tato. E, francamente, sobre tantas coisas que eu já estou cansada de saber sobre mim mesma.
Uma mescla de assuntos 🌹
Reunindo aqui textos que me tocaram e que tem em comum a inquietude dos dias <3






acho que sempre há espaço para alguém dizer mais alguma coisa.